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Grande Reportagem DN ‘Graffiti’ - Arte ou Vandalismo? O VANDALISMO ASSUMIDO E EXPLICADO PELOS VÂNDALOS |
Sábado|16 de Fevereiro de 2008|nº 50 722
As cidades riscadas, irritam toda a gente. Até quem as risca
“Graffiti não há defesa possível. É mau, é feio, é sujo e destrói.” Quem o diz não é um autarca ou um presidente de junta de freguesia, um qualquer representante da autoridade ou um vulgar cidadão incomodado com os riscos Na sua rua, com o estado deplorável do Bairro Alto ou com a dessacralização de monumentos a golpes de spray. É Keims, 19 anos, dono de uma das tags mais repetidas nas ruas de Lisboa, membro da Reis Crew, um grupo de oito que já custou muitos milhares de euros á CP e ao metro e cujo portfólio fotográfico, acumulado em anos de actividades cuidadosamente planeadas (“são autênticos jogos de estratégia”, diz), soma centenas de imagens.
Paredes, claro, mas sobretudo comboios. Comboios e mais comboios pintados de alto a baixo, janelas e tudo, fotografados dentro dos túneis do metro ou ao ar livre, do ângulo certo para o máximo de efeito, “horas e horas ao frio, sem dormir, á espera que o comboio que pintámos apareça, que a luz esteja certa, o ângulo correcto… Temos de fotografar antes que mandem limpar. No metro temos de captar as imagens dentro dos túneis, porque eles nunca deixam circular uma composição pintada. “Um trabalho á séria, como se fosse um trabalho a sério. No qual se pode arriscar até a vida – Keims não conhecia o jovem que em 2003 morreu electrocutado na estação de metro do Rato, mas, como todos, sabe da história e decerto umas bulhas com grupos rivais, umas corridas a fugir da policia ou dos seguranças, talvez uns abanões e umas cacetadas, uma multa e algum trabalho a favor da comunidade. Um trabalho que custa dinheiro, a três euros a lata e a umas 15 latas o comboio.
“ Como é que eu hei-de explicar? realmente é muito complicado.” Nos olhos vivos e na boca trocista, Keims exibe a graça do paradoxo. Tenho plena consciência do que é mau. Mas gosto de passar na rua e ver as tags, o meu nome e o dos outros, e gosto de planear as acções. Gosto o ambiente, do grupo…” O orgulho no que faz é óbvio na exibição das imagens, na acumulação de gadjets para testemunhar as façanhas, entre máquinas digitais e CDS com muitos megabytes, nas descrições entusiásticas. “ O ambiente nos túneis de metro é incrível, o ar é pesado, não se vêem bichos. Não há vida lá em baixo a não ser umas baratas enormes, nunca vi baratas tão grandes.” A forma como se conseguem introduzir nessas zonas interditas, com alarmes, circuitos de videovigilância e seguranças musculados assume contornos de epopeia. Como as fintas á policia chamada pelos funcionários das companhias ferroviárias,”com tiros e tudo”, garante Hugo. “São uns selvagens. Nós somos adrenalina fácil para eles, não temos perigo nenhum. Já vi as balas a baterem na chapa do comboio ao meu lado.” A sério? O rosto travesso endurece. “ A sério. A última vez que isso aconteceu foi em Dezembro de 2006. Estava a pintar um comboio em Alverca.”
Em Portugal não houve até agora nenhum caso reportado de morte nem de ferimento de graffiters por acção da polícia, mesmo se Keims não é o único a testemunhar perseguições com balas e tareias nas esquadras. Por outro lado, o pedido de informação á psp sobre o número de ocorrências, detenções e queixas relacionadas com grafitis não é muito bem sucedido. Dois meses após o pedido de informação, enviado por escrito, á direcção nacional da PSP nomeia o subintendente Luís Elias, do” departamento de operações” para falar sobre o assunto. Números, nada. “Temos a nossa estatística o crime de danos mas há alguma dificuldade em autonomizar os grafitis”, assegura Elias. “ No entanto é visível que o fenómeno está a alastrar, não só por uma observação do estado das ruas como também pelo número de intervenções.”
O problema das estatísticas, porém será também devido ao facto de existirem situações em que “jovens são detidos em flagrante delito e depois os lesados, sejam proprietários de prédios sejam as próprias empresas ferroviárias, não avançam com o procedimento criminal. Não querem ‘chatices’…”
Os perpetradores são sobretudo jovens do sexo masculino. “ O típico é o adolescente entre 12 até 20. Mas já encontrámos miúdos de sete e oito anos e indivíduos de 26 anos a danificar monumentos públicos.” Solução? Luis Elias suspira. “ Não há soluções. Não se resolve com um polícia em cada rua de certeza. Há uma questão de princípio que é de ser necessária uma consonância de várias entidades, dos municípios aos proprietários, no sentido de combater este fenómeno. E um dos pontos essenciais é que é preciso limpar, para não dar a ideia de laxismo. É a teoria das janelas partidas…”A teoria das janelas partidas: a degradação atrai degradação, o vandalismo atrai vandalismo. “Não se pode passar a mensagem de impunidade. Se se limpar o que eles fazem eles deixam de fazer. No parque das nações, por exemplo não há grafitis. Os condomínios mandam limpar tudo e há segurança privada.”A videovigilância, a alteração do tipo legal do ilícito - passando-o do âmbito criminal para o contra-ordenacional ou seja, á sujeição automática a multa, ou a aplicação sistemática de trabalho a favor da comunidade (“ Uma medida muito aplicada lá fora é obrigar os miúdos a limpar o que fazem, a detenção só, para eles é um troféu mas ficam envergonhados se os obrigarem a limpar”) são hipóteses de combate aventadas pelo oficial da PSP. Mas algumas, como a da limpeza sistemática, são contraditadas pela realidade; afinal o metro não deixa circular uma única composição grafitada e não é por esse motivo que os graffiters deixam de a pintar. Há até quem, como Keims, proteste quando as coisas não são limpas: “Não sei o que se passa ultimamente com a CP, parece que não estão para se chatear, limpam mal. Parece que se renderam… Acho mal, gosto de ter os comboios limpos…” Um jogo de gatos e ratos em que não é sempre fácil saber quem faz de rato. E que não teria razão de ser se o “código do genuíno graffiter”, que luís Elias cita como sendo o de “ só pintar fachadas de edifícios abandonados” fosse seguido. O problema, conclui, “são as imitações.
Eis uma perspectiva em que Mean de 22 anos, e o oficial da PSP se encontram. “ Eu opto sempre por um prédio gasto. Não tenho a ganância de ir para o prédio novo porque a tinta agarra melhor, porque fica mais bonito… mas a maioria prefere a superfície lisinha, faz mais efeito.”Recém-licenciado num curso de análises clínicas, Mean desmente a alcunha no rosto doce e na suavidade do trato. Mas o cadastro, com uma condenação em 2000, por dano (na estação de paço de arcos) e outra por invasão de propriedade, acusa as actividades”extracurriculares" que mesmo a mãe desaprova.” Ela diz ‘Até está bonito’, mas critica. Ainda noutro dia me disse que no comboio não conseguia olhar para fora porque as janelas estavam pintadas. Reconheço que é chato - as pessoas nem podem ler o jornal por falta de luz… e não vou dizer que nunca fiz danos na propriedade dos outros, porque não seria verdade.”
Foi há uma década, mais coisa menos coisa, que Mean e o amigo Nain, de 23 anos, entraram naquilo a que chamam “uma cultura”. “Começou na zona de Oeiras, pintava-se a marginal… depois veio a cultura de pintar comboios. E o boom, entre 2001 e 2003. “A deslocação dos graffiti para o centro de Lisboa ocorreu já depois disso. “É a capital, é onde toda a gente passa…È um bocado uma declaração de posse:”estive aqui”. As fachadas do bairro alto, integralmente “garatujadas”, são o mais impressionante exemplo desses testemunhos de passagem cuja repetição dita, explica Mean, “uma hierarquia de respeito: quem tiver a mensagem mais espalhada ganha.”
Uma competição que começou, no ultimo ano, a alastrar as zonas até então praticamente virgens do centro da cidade, como a baixa, a avenida da liberdade, a sé e Alfama à medida que a febre dos graffiti foi ganhando mais adeptos.” Realmente nos últimos meses intensificou-se e ‘ tá tudo pintado’, observa Keims.
“Até já pintaram o meu prédio. Se apanhasse o puto que fez aquilo dava-lhe um puxão de orelhas. Ao olhar perplexo da interlocutora, exclama: “È o meu prédio!”
Eis a suprema ironia, uma espécie de caricatura da atitude dúbia da generalidade das pessoas em relação aos graffiti: afinal, quem não acha graça a algumas paredes ou muros ou mesmo á imagem impressionante de um comboio inteiro pintado de alto a baixo? “Em geral, o cidadão médio só se preocupa se lhe tocar a ele”, observa o subintendente Elias. “As pessoas em termos de cidadania tendem a virar as costas.” Há até muito “bom cidadão” a incentivar nos filhos esta “expressão”.
Mean testemunha: “Na novela da tvi Morangos com açúcar a dada altura houve uns episódios em que uns tipos faziam graffiti. Foi incrível o efeito: estávamos na loja das latas e apareciam mães com miúdos de nove anos a comprar sprays e marcadores. “Um dos donos da Can´s shop Hungo baptista confirma. “Perguntavam onde é que se podia pintar. E eu respondia: em lado nenhum. É ilegal. Mas elas compravam na mesma…”
(…)
Ate no discurso a indefinição é regra. Quando em 2001 o CDS/PP falou em aumentar as penas para os graffiters, surgiram muitas vozes à esquerda a contestar o ataque a “ uma forma de arte urbana”.
(…)
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